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Coletânea de textos publicados no
Ano IV - Edição nº8 - Janeiro de 2001

Altos e Baixos
Cristina Helena Sarraf

Por incrível que ainda possa parecer, lidar consigo mesmo é mais difícil do que o que sempre se pensou ser o mais difícil da vida: lidar com os outros.

Preconceitos explicam esse fato, que embora curioso, corresponde a uma etapa do progresso que estamos realizando, como Espíritos. Por exemplo: corpo e alma nem sempre andaram juntos, na cabeça dos seres humanos. Houve época (e não tão distante), em que se achava que mulheres não tivessem alma... E no nosso lado da Terra, o ocidental, para uma esmagadora maioria, corpo e alma são distintos e separados, devendo darmos menor valor ao primeiro, tido como causa de muita perdição.

Se o Espiritismo é a primeira filosofia científica, é também a primeira explicação de que qualquer tipo de matéria é apenas instrumento, enquanto os agentes, os seres, são os Espíritos. E nessa dualidade espírito/matéria, que constitui o Universo, os corpos são formados pelos Espíritos que os habitam, sempre em conformidade com suas possibilidades e necessidades. De maneira tal, que cada corpo corresponde ao estágio evolucional do Espírito que o criou e com ele vive numa integração absoluta, já que essa matéria agregada ao seu derredor, com órgãos e funções específicos, é a exata expressão das características desse Espírito, ou alma.

Se corpo e alma fossem separados, independentes, aí sim, poderíamos considerar que o corpo pudesse criar dificuldades para a alma. Mas então, precisaríamos pensar que o corpo é um ser, ou que tenha algumas vontades próprias ou que age por si. Mas, à luz do Espiritismo não é isso que acontece. Muito ao contrário!

Instrumento, o corpo é formatado e "manuseado" pelo Espírito, constituindo-se em uma extensão materializada dele, como um braço mecânico ou um robótico, servem, respectivamente, para suprir os movimentos daquele que foi amputado ou para fazer uma cirurgia à distância.

Certamente, a qualidade do instrumento depende de quem o constrói... E, claro, ninguém pode dar o que não tem. Ou seja, não adianta querer um instrumento (corpo) mais apropriado para isto ou aquilo, se não se tem essas características desenvolvidas, em pelo menos um mínimo.

Mas voltando à idéia de que o corpo cria problemas para a alma, é preciso notar que sendo apenas instrumento, o corpo é o que a alma é, nem mais e nem menos. É o Espírito que sente, que necessita, que age. O corpo precisa apenas de combustível (alimento e ar), para ser posto em funcionamento. Sensações, sentimentos, dores, paixões, vícios, desregulamentos, doenças, especializações, competências, são características do Espírito, manifestadas através do seu corpo, cuja forma também depende dele, tanto aquela com que nasce, como a que adquire durante a vida.

Por tudo isso, quando nos empenhamos em modificar algum comportamento ou quando nos dispomos a adquirir um comportamento, passamos por aquela fase de altos e baixos ou seja, temos momentos de sucesso e momentos de recaídas, já que leva um tempo para mecanizarmos algo novo, tornando-o o nosso natural. E tudo porque o Espírito, a alma, está acostumada, viciada, mecanizada a um tipo e ação, pensamento ou sentimento. O corpo é apenas o reflexo do que somos.

E não há vergonha alguma nas recaídas, porque elas são o processo natural se fazendo, até a superação integral da situação, ao nível espiritual e no material. É impossível transformar comportamentos, sem passar, gradativamente, do antigo para o novo, do que era, para o que está se tornando.

O ano 2000 passou. O cometa não caiu e estamos entrando no tão falado e sonhado século 21.... ainda com as mesmas dicotomias e com a mesma esperança de termos um futuro melhor - justo para com todos - de oportunidades e pessoas mais sorridentes e felizes.

Será que chegaremos no século 22 tendo o mesmo sentimento? Espero que não. Espero que sejamos capazes, cada um de nós, de construirmos nosso caminho de felicidade. Enxergar nossos erros, nossos acertos, fazer cada vez o melhor por si e pelo próximo e assim ir mudando o mundo aos pouquinhos. Como os tijolos que pouco a pouco vão formando uma sólida casa.

Acho que esse não é um sonho tão impossível. Afinal temos mais mil anos para realizá-lo!!!...E só depende de cada um de nós fazê-lo realizar.

Que a luz de Deus possa brilhar em todos os corações e que todos possamos ter a certeza de que a Paz, o Amor e Felicidade estão muito próximos de nós.

Basta queremos e fazermos.

Beijos e FELIZ SÉCULO 21.

Lia Mara


CURSO DE PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS DO ESPIRITISMO
do CEM


Um Novo Tempo
Rita Foelker

A oportunidade de viver esta transição de milênio na Terra pode ter muitos significados e desdobramentos.

No geral, existe uma certa excitação no ar, alguma ansiedade, por enquanto, até que as pessoas se habituem a preencher seus cheques do jeito certo e tudo volte ao que é. Nossos dias logo voltam a ser iguais, seguindo a rotina dos nossos pensamentos.

No que diz respeito às Casas Espíritas, isto me põe a pensar. Andei observando que os espíritas têm algumas características psicossociais bastante comuns entre si, como comunidade humana dentro da comunidade planetária, e uma delas, fortíssima, é uma certa tendência e olhar para o passado. Lógico que há pessoas (indivíduos que o borrifador divino parece haver espargido aqui e ali) de visão, fazendo um trabalho moderno e olhando para a frente. Mas o Centro Espírita ainda é uma estrutura predominantemente voltada para trás.

O temor de mudanças, um certo autoritarismo disfarçado em zelo doutrinário e disciplinar, o desejo de controle de certas pessoas colocadas em postos-chaves, a busca de prevalências de visões pessoais nem sempre concordes com o espírito da Doutrina, comodismo, preconceitos de toda sorte, contribuem para a manutenção de um estado de coisas. E as coisas vão mais mal do que bem.

O discurso espírita vai ficando para trás, fora do seu tempo, num romantismo e pieguismo que enlevam, mas não chegam ao coração das pessoas, nem conduzem à verdadeiras mudanças.

O culto a personalidades desencarnadas que se promove (Kardec, Bezerra, Cairbar, Denis, Anália, só para citar os mais conhecidos) não nos permite entende-los como criaturas de olhos no presente e na modernidade que imprimiram em sua época, rompendo com padrões, para criarem perspectivas e ações novas, cujos efeitos nós, seus sucessores, estamos colhendo. Quem foram e o que fizeram, de fato?

E o nosso legado, qual será?...

Fico imaginando quando é que o Centro Espírita vai chegar ao século XXI, pois precisa primeiro passar pelo século XX.

aprendendo e usando, usando e aprendendo

Um dos grandes percalços que nos acompanham é aprender e não usar.

Parece mesmo que a vida fica parada porque estamos cheios de informações e continuamos vivendo da mesma forma que antes. Espécie de acumular coisas, criar peso. Melhor seria não saber...

Aprendizados sobrepostos a coisas que já sabemos, resultam em rápida possibilidade de uso, no dia a dia. Enquanto que aprender algo novo, ou seja, sem substrato, sem conteúdo anteriormente adquirido, fica muito mais difícil de aplicar, de criar as ligações mentais necessárias para o uso, nos variados aspectos da vida.

Entretanto, dentro dessa realidade existe uma questão de postura, que pode ser examinada e servir como estímulo e impulso para alterarmos, um pouco que seja, esse costume depreciativo.

Postura é a nossa atitude íntima, a forma como assumimos algo, o empenho pessoal para ter, ser, partilhar, realizar. É como nos postamos conosco mesmos face às coisas. É o valor que se dá a si mesmo.

Equívoco: imaginar que é preciso saber muito, ou tudo, para começar a usar. Se assim fosse, jamais estaríamos aptos a qualquer coisa, pois na realidade sempre há o alem daquilo que se sabe, porque a lei da evolução a tudo e a todos abraça e conduz.

Então, a palavra de ordem é: aprender e usar, usar e aprender. Ou seja, aplicar logo o que se aprende, da forma possível, mesmo que seja somente falar sobre o assunto. Assim vamos nos desembaraçando e descobrindo internamente a compreensão, as conexões com o que já se sabe, com as experiências já feitas e abrindo condições de aprender mais e usar melhor.

É um processo crescente, acrescentador: aprender e usar, aprender mais porque já usou e usar melhor porque aprendeu mais. Incessantemente.

Processo que gera alegria e realização pessoal.

Quer experimentar e ver como de todos os lados e de todas as formas algo vem reforçar, estimular, esclarecer, acrescentar luzes, colaborar?

E com maior rapidez você vê resultados...

No quê aplicar esse comportamento?

Em tudo!