O Evento
Cristina Helena Sarraf
Olhando com olhos de ver, eventos promocionais das Casas Espíritas representam oportunidades ímpares para algumas importantes análises.
Em princípio, a arrecadação de fundos, tão necessária às Instituições, deverá merecer uma profunda revisão, tendendo para uma forma estável de ganhos, resultantes de bens imóveis ou produzidos especificamente para essa finalidade, suprindo continuamente gastos e benemerência. Mas, essa é uma conversa para outra ocasião.
Da forma como funcionam, a maioria das nossas Casas, um continuar de eventos, que precisam da disponibilidade e a boa vontade de trabalhadores e aficionados, é a solução supridora das necessidades materiais.
E aí começa a nossa análise.
Algumas Casas, ante um evento que acontecerá, montam uma verdadeira "praça de guerra", com detalhados treinamentos, intensivos e desgastantes, para os que tiveram a vontade de colaborar. Só falta o manual do evento, fruto de noites maldormidas, na busca de prevenir o que poderá acontecer e armar os trabalhadores, com unhas e dentes, para que não falhem e nem precisem ter iniciativas, que podem ser comprometedoras...
Outras Casas, juntam quem está disponível e fazem o que dá, sem um mínimo de planejamento e previsão.
Obviamente, é o caminho do meio que nos indica a alternativa mais eficiente, democrática e funcional.
E então, os preparativos para o evento vão garantir o sucesso esperado e necessário.
Sim, todos costumam fazer preces, pedindo o amparo espiritual, que nunca falha, mas que precisa ser percebido.
E chegando o grande dia, desde cedo, geralmente, tudo parece acontecer para por à prova o esquema preparado, a começar pela vida pessoal dos responsáveis...
Valeu a pena o evento? Sim, mas...
A teoria espírita é bela e facilmente aprendida, sobretudo por quem quer aprender. Quanto à prática, são outros quinhentos... Entretanto, de que serve abraçar essa bela teoria doutrinária, que tudo explica muito bem, se a vida da pessoa continua igual e o que ocorre é vivido e enfrentado como todo mundo o faz?
Os eventos são excelentes oportunidades para verificar se realmente estamos aprendendo o que ensina o Espiritismo e como fazer para usar esse aprendizado, no momento em que as coisas acontecem.
Será que um objetivo em comum é o suficiente para mover-me internamente, de modo a segurar, nessas horas, meus vícios de discutir, alfinetar o outro e aceitar sugestões mentais que acabam facilitando a entrada das influências negativas? Pelo bem da Causa...
Será que ter aceito uma incumbência num evento, em prol de... é suficiente para eu conseguir evitar respostas agressivas e inoportunas, que estragam qualquer situação e despertam péssimas reações em quem é o alvo, e nos demais presentes, mesmo que me justifique pelo cansaço ou o muito que fazer? Ajo por sacrifício ou por amor?
Será que já me sinto em suficiente integração aos objetivos do trabalho Espírita, a ponto de assumir que da minha postura íntima e exteriorizada, depende o bom êxito do evento? Sei o quanto valho?
Será que meu ego dá lugar ao bem comum, quando este é o centro dos acontecimentos?
Será que consigo deixar minhas dores de lado, por um pouco de tempo, o suficiente para que minha participação no evento não seja comprometida pelos meus melindres?
Será que já tenho suficiente maturidade para participar, construtivamente, de um trabalho coletivo, impedindo-me de pensamentos, palavras e atos que estraguem a oportunidade, minha ou de outros?
Já quero marcar com alegria e boas lembranças, nascidas do meu discernimento, os eventos dos quais participo? Ou ainda espero que outro me faça ficar bem, comportando-se como quero?
Já sei diluir o ressentimento por não terem ouvido minha sugestão, que era a melhor?
"Fecho o tempo" por não respeitarem o que é melhor para mim, ou sei qual a hora para isso?
Ao nível individual e ao nível coletivo, como tem sido minha participação nos eventos da Casa Espírita? Onde pretendo chegar, agindo como ajo? Dou valor para esses acontecimentos ou ainda penso que pelos objetivos serem materiais, não são experiências espirituais?
Fico medindo quanto trabalhei, em relação ao outro, ou já sei agradecer, sinceramente, a oportunidade de trabalhar e crescer, aplicando o que tenho aprendido?
Faço o melhor possível a minha parte ou me estraçalho de ciúme do destaque do outro?
Minhas palavras são positivas ou aproveito qualquer oportunidade para destilar o veneno da crítica azeda e do menosprezo?
Crio uma festa com minha presença ou um filme de horrores?
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A ovelha desgarrada
Uma amiga / Rita Foelker
"Às vezes pergunto-me até que ponto os mestres da terra realmente compreenderam o porquê de nosso Mestre Maior nos haver deixado a parábola da ovelha perdida.
Ele não falava de pastores, ou de ovelhas, ou de perder-se de um rebanho. Ele falava de Educação.
Ele comparava a função do mestre a de um pastor, no que ela tem de mais terna, cuidadosa, no trabalho de cuidar das almas, não para indicar-lhes um caminho (hoje sabemos), mas para ensinar-lhes a não se perderem no caminho escolhido por elas mesmas e a refazer seus possíveis descaminhos.
A figura de um pastor é profundamente ligada à Natureza da região onde vive, necessitando saber tanto do frio que pode fazer, como quanto frio suas ovelhas podem suportar sem perecer,a fim de providenciar-lhes indispensável abrigo; necessitando conhecer os pastos e fontes, para conduzir suas ovelhas a suprirem as mais elementares necessidades de sobrevivência; observando, também, as estações, para agir no tempo certo e da forma mais eficiente...
São muitas as interpretações centradas na imagem da ovelha desgarrada do rebanho, como se a procura de alternativas próprias fosse, em si, altamente reprovável. E é difícil não julga-las, julgando ao mesmo tempo todos aqueles que, em nossas classificações mentais, pertencem à categoria dos que fugiram à regra.
O que fez, terá sido certo ou errado? Afinal, não acabou por receber uma recompensa, a atenção maior do responsável por ela, o que, de certo modo, significa que podemos agir temerariamente para suprir nossas carências íntimas, aguardando algum protetor que nos venha em socorro?
Não, certamente não eram estas as intenções do Mestre: nem de que nos fizéssemos juizes dos outros, nem de que tirássemos vantagens de nossas fragilidades. Não seria preciso que o Cristo se movimentasse até nós, para ensinar o que já fazemos tão bem...
A parábola da ovelha perdida encerra uma outra lição preciosíssima. De que um bom pastor não deseja, não pode, nem quer perder nenhuma de suas ovelhas pelo caminho, porque a todas ele ama individualmente e cada qual é insubstituível. Aquela que se perdeu não é especial por perder-se pois, na verdade, todas são especiais a seu modo, e ele sairia em busca de qualquer uma delas que pudesse colocar-se em perigo.
Os perigos, para as almas educandas, representam as idéias falsas a que se aprisionam, as redes de ilusões em que se debatem, podendo o pastor-educador resgatá-las de suas próprias armadilhas, trazê-las de volta ao meio mais propício, à disposição íntima mais favorável à compreensão da verdade.
Isto, Jesus faz conosco, trazendo-nos de volta ao seu convívio, à influência de seu amor incomensurável e de sua irresistível ternura, para que todas as almas conheçam e saibam que o amor as assiste, o amor as ampara, o amor as guia aos campos e águas puras do Reino."
Nas 24 horas de cada dia !
Já está na hora de os dirigentes espíritas desenvolverem o entendimento de que mediunidade é um patrimônio de todos os Espíritos chegados à fase humana, cujo funcionamento, percebido ou não, é de todas as horas de todos os dias.
Definindo mediunidade e médium, Kardec abre-nos um mundo de coisas novas, pois demonstrando que a faculdade é de todos os humanos, e que sentir num grau qualquer a influência dos Espíritos é ser médium, coloca-nos ante a evidência de que nas 24hs de cada dia podemos estar, de algum modo, percebendo influências espirituais.
Ainda está arraigada a equivocada idéia de que os Espíritos só exercem influência em certos momentos, de forma ostensiva ou por razões específicas. Estamos longe de vivenciar a realidade do convívio com os Espíritos, o qual nasce de nossos pensamentos e não da mediunidade, que é apenas um recurso para entendê-los. Todos os seres vivos contatam com os Espíritos, mesmo porque eles participam de tudo, na Natureza, desde o clima até todas as manifestações da vida. Mas, somente os humanos podem dialogar com eles. E essa capacitação é a mediunidade.
Entender, como fato natural, que qualquer pessoa liga-se aos Espíritos pelos pensamentos e que mediunidade é a possibilidade que vai se desenvolvendo de entender esses Espíritos, muda a vida, porque passa-se a saber que há uma rede de interinfluências, que hora notamos e hora funciona tão sutilmente, que não notamos. Entretanto, a pessoa esclarecida começa a desenvolver recursos pessoais e a acreditar no que já pode perceber. E vai ganhando um pouco de autonomia, que é o objetivo maior do Espiritismo, ou seja, libertar pela verdade.
Finalizando, é preciso também ensinar a perceber e a diminuir o temor. Sugerimos um exercício muito eficiente: Observe ao seu derredor, o dia todo, o que acontece. Sem julgar. Vendo com olhos de ver, para entender como a vida funciona. Logo mais, saberá agir com mais eficiência.
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