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Coletânea de textos publicados no
Ano III - Edição nº12 - Maio de 2000

Que terei feito no passado para... ?
Cristina Helena Sarraf

É bem provável que muitos de nós carreguemos essa pergunta angustiante, em busca de razões para as situações complicadas e difíceis que permeiam a vida.

A Doutrina Espírita nos diz das causa presentes e passadas das aflições e também ensina que cada nova reencarnação põe uma espécie de véu sobre os detalhes do passado, mas deixa-o muito tenuamente aparente.

Essas duas lições, estudadas e analisadas, podem apresentar uma resposta mais satisfatória para a questão: o que fizemos para criar as barreiras do presente?

As causas não estão, na maioria das vezes, nos atos errados que devemos ter cometido. Em primeiro lugar porque nem tudo que hoje achamos errado foi errado, no passado, pois cada Espírito tem seu tempo próprio de maturação e sempre, só fazemos o que é do nosso grau evolutivo e conforme as nossas possibilidades de entender e vivenciar as coisas. Em segundo lugar, porque a verdadeira causa de nossos atos é a forma como pensamos sobre o assunto.

A Lei de Causa e Efeito, funcionando sobre nossos pensamentos e atos, ou seja, sobre o nosso Livre Arbítrio, está na dependência do quanto e do como podemos e queremos usar essa capacidade de optar e decidir. E, a bem da verdade, esse arbítrio não é livre verdadeiramente, já que todas as circunstâncias, leis, situações, o próprio discernimento e o amadurecimento de cada um, determinam e limitam essa liberdade. Todavia, mantemos o arbítrio, dentro desses naturais limites, como capacidade inalienável de escolher, decidir e optar como pensar, agir e ser.

E aí está, a origem de nossos atos: os pensamentos.

A maneira de pensar é de cada um, e obedece as escolhas que vão se fazendo no decorrer das existências mas, sobretudo nesta.

O passado está na memória passiva, mas não está morto. Ele "sobe", invisivelmente, muitas e muitas vezes, durante esta encarnação, motivado por situações, pessoas e comportamentos que são seqüência, conseqüência ou quebra de atitudes que já tivemos; quando algo se assemelha ao que já existiu ou mesmo, quando voltamos a agir da mesma forma. Pode também aflorar durante o sono do corpo e ficar como sensações ou cenas, ao acordarmos. E pode ser ativado pela aproximação de Espíritos com os quais tivemos vínculos ou mesmo pela ação daqueles que querem nos manter numa certa forma de ser, pois lhes é conveniente.

Essas "subidas" não são más, são a revivescência, em forma de sensações, emoções, vagas lembranças e sentimentos, de situações que não estão resolvidas ou que têm sido muito cultivadas e que fazem parte natural de nosso íntimo. Afinal, cada encarnação é uma seqüência, sem quebra, da anterior e em tudo e por tudo prosseguimos sendo nós mesmos, por mais que mudemos a personalidade, em cada nova vida ou nas várias etapas de uma vida.

É através do processo de observação que podemos perceber o quanto os pensamentos que cultivamos estão determinando nossos atos, pois a partir de um certo nível de envolvimento com determinados pensamentos, parece-nos lógico e certo que as ações sejam conforme eles são. E dificilmente paramos para examinar se há uma verdadeira lógica ou se estamos apenas prosseguindo numa só linha de pensar, ignorando outras facetas da situação ou do assunto.

Sendo, então, os pensamentos, a forma de pensar, que gera os atos, não basta mudar de encarnação, orar muito, ter as melhores intenções, esquecer o passado, perdoar, ser caridoso, pedir ajuda aos bons Espíritos... para que as situações da vida passem a ser menos pesadas e mais administráveis. É preciso rever, o enfoque dos pensamentos, como eles estão formulados, de onde vieram, se estão considerando os vários lados de uma questão, se baseiam-se nos Princípios Espíritas(para quem adota o Espiritismo como filosofia de vida), se foram contemporanizados, se estão coerentes com o seu íntimo.

É você que escolhe os pensamentos e é você que recebe os efeitos deles, tenham ou não sido materializados sob a forma de atos.

CURSO DE PRINCÍPIOS DOUTRINÁRIOS DE ESPIRITISMO CPDE - Edição 2000
O necessário diferencial para o entendimento espírita no terceiro milênio
Campanha anual/permanente de divulgação para o estudo de
O Livro dos Espíritos - lema 2000

Pais... Filhos...
Uma amiga/ Rita Foelker

"Pais...Filhos... Existe um propósito especial em reencarnarmos como pais e filhos, diferentemente das outras relações familiares.

Existe um vínculo especial, diferente de quaisquer outros vínculos.

Porque Deus nos permite recebermos como filhos aqueles Espíritos muito próximos de nosso coração, amizades cultivadas em solo abençoado de companheirismo e respeito, onde as raízes se aprofundam e os frutos têm chance de se multiplicar. Mas ele também atende ao nosso anseio de oferecer nossos corações a Espíritos menos ligados a nós, para que este aprofundamento se faça, já que o destino de todos os seres do Universo é perceber que integram a grande família, onde o Criador senta-se à cabeceira da mesa, e onde experimentamos a alegria de estar juntos.

Os pais têm a chance singular de ser praticamente decisivos, nas encarnações de seus filhos. Nenhum encarnado influencia tanto o outro, nem durante tanto tempo, nem de tantas maneiras. Podemos discordar, dizer que nos lembramos mais de um amigo ou de um professor ou de tal poeta que de nossos pais. Mas o fato de nos lembrarmos apenas significa que nos fizemos conscientes destes outros. Porem a presença dos pais começou a imprimir-se em cada Ser no momento da concepção, e a cada instante em que este Espírito despertava para si mesmo, com o desenvolvimento do organismo, e o expandir-se de seus potenciais dentro deste novo corpo, e já a voz do pai, o perfume da mãe, o carinho na face,a delicadeza do banho, o calor suave do leite lhe transmitiam mensagens de incomparável repercussão nas disposições íntimas. E era apenas o começo.

Você pode dizer, hoje, que seu filho não aceita seus conselhos, que ele faz coisas contrárias a tudo o que lhe quis ensinar, mas não pode apagar a herança que lhe deixou, que possivelmente ele nem descobriu, ainda, porque há ocasiões em nossas vidas (e ele pode estar numa destas ocasiões), em que não estamos dispostos a mergulhar em nossa interioridade mais profunda, e é lá, no fundo de suas almas, que você, pai ou mãe, está.

É natural que pais e filhos tenham choques aparentes. Aparentes, porque apesar das discussões, do tom alterado, de muitas vezes um filho ir-se embora, ficar com amigos ou consigo mesmo, este conflito não acontece no fundo das almas. No fundo de si mesmos, pais e filhos são apenas Espíritos tentando acomodar novos conceitos, aprender novas maneiras de se relacionarem consigo mesmos e com o outro, relacionarem-se de forma a diminuir sua própria dor.

E é este mesmo filho um Espírito reencarnante, um Espírito construindo como artífice a sua própria história. E vem o pai, na sua função prioritária, e lhe pergunta: O que foi que você trouxe a esta encarnação para ser trabalhado? Como posso lhe ser útil? Veja, tenho esta ferramenta para lhe oferecer, será que não lhe serviria? Se precisar de alguma sugestão, estarei sempre aqui, ouviu, meu filho, minha filha?...

Muitas vezes, um pai gostaria de oferecer um formão a um filho, mas este filho quer ser padeiro! É natural que os pais tenham sonhos com relação aos filhos. Um pai pode sonhar com um filho marceneiro,mas este é o seu sonho, não é o do seu filho. O seu filho veio para exercer o ofício abençoado de fabricar pães, é o que lê quer e pode fazer, com a benção de Deus e a promessa do aprendizado condizente com a sua necessidade atual. E que dizer, então, dos filho para quem só podemos oferecer um lápis, e vê-los a rascunhar suas primeiras letras, mesmo depois de adultos? Meu Deus -diria alguém- mas parece tão pouco!

Pode a limitação de nosso entendimento não nos dar a perceber a evolução operando-se naquele Espírito, o fermentar da massa, nem o valor de nossa presença em seu mundo, mas está acontecendo...

E quanto mais este Espírito parece contrastante comigo, mais presente me faço e mais afirmo pacificamente o que sou, e mais reitero que o amo, porque não há dificuldade em amar os que se afinam conosco, mas há necessidade de aprender a encurtar a distância com os que não se afinam.

Pais ensinam filhos, filhos ensinam pais, desde o início. Vemos Francisco, manso, silencioso, humilde, mas sempre absolutamente sincero consigo mesmo, ensinando Bernardone. Por isso, não importa se o silêncio é o que podemos oferecer. Mas que seja este silêncio cálido e amoroso, jamais frio, o silêncio da ausência. Seja nosso silêncio o daquele que ora em secreto. Seja nosso silêncio de pais e mães aquele pequeno floco, pronto a se desmanchar ao mais delicado toque, à mais leve intenção de entendimento."