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Coletânea de textos publicados no
Ano III - Edição nº10 - Março de 2000

A dor é inevitável?
Rita Foelker

Vivemos num meio que, muitas vezes, por não entender a função da dor em nossas vidas, considera-a indispensável ao processo evolutivo.

Esta é uma idéia falsa. Nenhum de nós foi criado para evoluir através da dor.

A dor é uma possibilidade em nossas vidas: podem nossas escolhas, vez por outra, doer. É possível, mas não inevitável.

Até porque, o importante não é a dor em si, exceto como um sinal, um alerta. Parar na dor e ficar com ela, submetendo-se a ela, como se isto garantisse algum mérito em futuro próximo ou distante, é o mesmo que acordar pela manhã com o despertador tocando e conformar-se em ouvir seu barulho irritante pelo resto do dia, sem desliga-lo, crendo que isto demonstrasse resignação, quando é apenas falta de inteligência.

A presença da dor representa , em nossas vidas, a ponta de um iceberg (na expressão bem escolhida por minha amiga Sandra) de um padrão de comportamento. Quer dizer que há tempos vimos assumindo idéias e atitudes negativas sem perceber, pensamentos contra nós mesmos, ilusões de todo tipo. Para nos tirar da ilusão em que vivemos, e nos trazer de volta à realidade, a dor é um meio eficaz.

A dor tem o condão de nos fazer olhar para nós mesmos. E o melhor que se pode fazer, em relação a dor, é descobrir e sanar sua causa, que está sempre em nós mesmos.

Porem, isto não é tão simples. O mais comum é responsabilizarmos os outros, ou as coisas, pelo incômodo que estamos sentindo. E isto leva a três atitudes bastante prejudiciais:

  • à passividade, submissão: colocar-se sob o domínio, à mercê da dor e de seus efeitos desagradáveis;
  • à revolta, raiva: incompreensão e ignorância das causas, levam ao sentimento de vítima, de haver sido injustiçado;
  • à fuga: tentativas de esquivar-se da dor, através de vícios e manipulações.

Quando ficamos passivos, nos revoltamos ou fugimos (tudo para evitar sentir a dor), estes atos só revelam o quanto sentimo-nos impotentes para lidar com ela, o quanto acreditamos que ela é maior e independente do que quer que possamos fazer.

A mudança de ponto de vista, trazendo a causa da dor para nós mesmos, como resultado do livre-arbítrio ou da ignorância, coloca-nos em posição de vantagem e de domínio, com relação a dor. Coloca-nos na posição de agentes de nossa própria cura, quando aprendemos a escolher com sabedoria e vamos em busca do conhecimento de que ainda carecemos.

Não resta dúvida de que a dor ainda tem, em nossas vidas, um papel fundamental: o de puxar para o progresso. Mas o progresso significa desenvolvimento da inteligência, e com inteligência podemos evitar que a dor exista.

De fato, almejamos o dia em que ela se tornará desnecessária, e em seu lugar teremos o amor, a sensibilidade, a inteligência da razão e dos sentimentos, desenvolvidos. Aí, poderemos aprender de nossa própria curiosidade, de nosso próprio trabalho e discernimento. Com certeza, a evolução nos fará caminhar cada vez mais distantes dos processos dolorosos e, nem por isso, seremos menos sensíveis ou humanos. Seremos apenas mais felizes.


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POSICIONE-SE AO INVÉS DE FICAR ESPERANDO E PEDINDO!


Se Deus quiser...
Cristina Helena Sarraf - 21.03.2000

Contemporanizar, tornar contemporâneos, atualizar os pensamentos, é uma das idéias mais úteis e geniais a que se pode ter acesso.

Como é necessário este cuidado de rever o conteúdo mental, formado por idéias, conceitos e pensamentos que, no final das contas, estão moldando e determinando a nossa vida !

E aí vai o convite: que tal abrir a gaveta das idéias estabelecidas para sempre e fazer uma revisão sincera e lúcida, verificando quais delas permanecem coerentes com nosso íntimo e evoluíram, com a nossa atual forma de ver a vida?

Fatos desagradáveis, sentimentos dolorosos, aquela idéia de que o passado foi maravilhoso e hoje tudo é ruim, por que conserva-los como se fossem pedras preciosas que devem ser protegidas e guardadas, se só estão criando e mantendo um ambiente íntimo poluído e maléfico?

Sim, porque junto de um pensamento atualizadíssimo, como por exemplo o de que em nada há coincidências, está um outro embolorado e mofado, tal como o de que após aquela decepção não devo amar a mais ninguém...

Contemporanizar as concepções é limpar a mente do lixo acumulado e dar-se a oportunidade de reciclar o que pensa e como pensa a respeito de tudo, hoje, para criar um mínimo de coerência entre o que fomos aprendendo e sendo obrigados a ver pelas lições da vida, e o que foi ficando, resguardado pelas tradições, pela sociedade e pelo que todo mundo acha que é o certo. É fazer higiene mental.

Talvez ainda não tenhamos notado, o suficiente, o quanto uma forma de pensar fixada, limita, confunde, determina e caracteriza nossos atos, sensações e sentimentos. O quanto ofusca a visão de novos aspectos da situação observada, mantendo-nos na mesma posição mental, passe o tempo que passar. Vejamos por exemplo, a antiqüíssima idéia expressa por: se Deus quiser!

Se Deus quiser isto dará certo. Se Deus quiser ele ficará bom. Se Deus quiser o salário aumenta. Se Deus quiser chegarei cedo. Se Deus quiser...

É bem possível que muitos de nós utilizemos dessa frase mais por hábito do que por convicção do seu conteúdo, mesmo assim, que frasesinha confundidora e mofada heim?

Nascida há milênios antes de Cristo, na época do politeísmo, quando os Homens ignorando o funcionamento da vida e das leis físico-químico-biológicas, pensavam que os deuses comandavam a natureza e dela faziam uso conforme sua vontade e decisão, tendo o poder da vida e da morte sobre qualquer pessoa ou ser, essa idéia atravessou o tempo e permanece viva em muitas cabeças e corações. E não se pense que é parte da ideologia dos ignorantes, pois todo tipo de gente pode tê-la inserida, incrustada, embutida no âmago, distorcendo e esvaziando conceitos e entendimentos estruturados nas mais amplas e confirmadas observações e experiências.

Quando penso e digo para os outros, sobretudo para as crianças: se Deus quiser... estou mostrando que penso, que tudo na vida, na minha vida, depende das decisões e da vontade de Deus e, o que é mais absurdo, há coisas que por melhores que sejam, Deus não quer e impede que aconteçam! Ou seja, somos comandados por cordéis invisíveis e levados para onde e da forma que esse deus quiser...

Sim, por esse conceito, livre arbítrio é apenas uma balela, tal como respeito, consideração, iniciativa, ousadia, autonomia, futuro, independência, amor, etc, etc, etc...

Estudamos, no Espiritismo, sobre o Livre Arbítrio como lei universal mas, conservamos uma idéia arcaica, totalmente sem nexo e representativa dos tempos da ignorância, do medo e da superstição. A qual, certamente, esta imiscuída em nosso conceito espírita de Deus, impedindo que o tenhamos claramente expresso e funcionante, mesmo que exista teoricamente, na cabeça, mas não no coração, na alma, que ainda estão coloridos pela idéia infantil de que Deus decide os detalhes da minha vida.

Contemporanizar uma idéia é reconhecê-la, examiná-la, verificar que já podemos amplia-la, renova-la ou elimina-la. E começar o processo de assumir a nova feição de uma idéia ou a nova idéia. Esse processo as vezes é imediato e outras vezes requer um certo empenho, paciência e tempo, no qual vamos dizendo para nós mesmos que isto não é assim, que já penso de outra forma, posso assumir o novo pensamento sem temor, os pensamentos sou eu quem escolhe e não Deus, não perco a personalidade por mudar uma forma de pensar, mas pelo contrário, estou reforçando quem verdadeiramente sou, adequando-me às minhas próprias mudanças, progresso e aperfeiçoamento. Afinal, já não me serve e nem satisfaz, pensar daquela maneira, pois estou à frente e assumo com alegria a renovação.

assim, quantas idéias não contemporanizadas estão hibridando nossos pensamentos, tornando-os tímidos, oscilantes e antiquados, embora já vejamos sob novo prisma, o qual fica apenas na teoria, não passa para a ativa, já que o lugar está ocupado por aquele pensamento mofado, grudado e conservado sem revisão. É como ter uma gaveta cheia de objetos quebrados e inúteis, impedindo que outros, novos e necessários, possam ocupar o lugar.

Experimente! Seja um cientista experimental espírita!